Estudos
Confira
o "primeiro capítulo" produzido durante o curso de Livro-reportagem
realizado pelo Comunique-se em 2006 e ministrado por Kléster Cavalcante.
Falta um nessa família Daniela Marques
Da calçada ainda era possível ouvir o rap que tocava no
salão. Mas àquela altura ela já não prestava atenção na música. Tinha
mente e olhos concentrados na figura sentada no banco de concreto junto
ao ponto de ônibus. Ô moreno, posso sentar com você?, disse com a
coragem e objetividade que lhe são peculiares. _ Demorô, respondeu o rapaz, perguntando se ela queria beber alguma coisa. _ Tomo uma brejinha mesmo.
Depois daquela noite, Everton começou a visitá-la e sempre
levava um presente. Bombom. Sabonete. Perfume. E flor colhida de algum
jardim que encontrava numa das ruas da periferia de Guarulhos, na
grande São Paulo. Daniela, apaixonada desde
aquela noite na saída do baile, ficava cada vez mais encantada. E o
moreno de quase 1,80m e 70 quilos com os cabelos curtos e sempre bem
educado, correspondia. A paquera, que logo se tornou namoro, virou
casamento. Dois anos depois, eles se tornaram três e agora, já são em
quatro. Mas desde a noite de 14 de maio de 2006, falta um nessa
família. Daniela passou aquele dia das mães só com os filhos Daniel, o
mais velho de dois anos e o bebê Murilo de sete meses. O marido, como
sempre fazia aos domingos, saiu para trabalhar. Mas não voltou. Algo
até então inédito. Everton dos Santos Pereira,
24 anos, já cuidava de carros no centro de Guarulhos antes mesmo de
casar com Daniela Evangelista Primo. Aprendeu a profissão com o pai em
São Vicente, no litoral do estado. Ganhava entre R$20 e R$50 por dia.
Para Daniela, é o suficiente pra comida e pra fralda das crianças. Além
de fazer as vezes de flanelinha, Everton também fazia uns bicos. Tinha
dia que entregava folhetos nos faróis, em outros ajudava algum pedreiro
da região. Mas foi vigiando carros que conseguiu a maior parte do
dinheiro que comprava comida, fralda, presentes para a mulher. E foi
também com essa atividade que o jovem fez alguns desafetos. Daniela,
muitas vezes acompanhava o marido e foi testemunha de momentos tensos
vividos pelo marido e os amigos no calçadão do Bosque Maia, parque no
centro do município. Uma vez, grávida de dois meses de Murilo, os
quatro policiais responsáveis por fazer a ronda naquela região,
chegaram mais violentos do que o normal. Eles já tinham dito que era
proibido atuar como flanelinha naquele lugar. Mas Everton e os outros
meninos que trabalhavam ali não tinham muitas alternativas. E também
não se intimidavam com as ameaças. Só que naquele dia, mais do que
intimidar, o mais velho dos quatro oficiais, bateu nos meninos. Daniela
ficou muito nervosa e, mesmo grávida, ela o enfrentou e partiu para
cima do policial alto com cara de coroão, como ela diz. Irritado, o PM
disse à moça que só não bateria nela também porque sabia da gravidez.
Analfabeta, Daniela percebeu que o homem mantinha a identificação
afixada à farda, mas nunca soube seu nome. E
essa não foi a única vez que Daniela saiu em defesa do marido. Quase
sempre que eles iam trabalhar naquele lugar, os policiais apareciam.
“Tinha dia que eles enquadravam todo mundo”. Daniela lembra irritada
das piadinhas que os policias faziam. “Os hómi chamava ele de neguinho
folgado, de nóia”, e isso tudo a deixava “louca”. Mas, valente que era,
a jovem enfrentava os policiais e, por conta disso, raramente os
policiais batiam em Everton. Nunca quando ela estava com ele. Mas, nos
outros, era “soco e bicuda”. A última vez que
Daniela foi para o trabalho com o marido testemunhou de novo a
agressividade dos guardas e, mais uma vez, ouviu ameaças de que um dia
eles dariam “um sumiço” nos meninos. Mesmo se mantendo sempre corajosa,
às vezes, ela se assustava porque muitas vezes, eles apareciam com
“cara de louco”. E foi assim naquele dia no início de maio.
Duas semanas depois, na manhã do dia das Mães, Everton e
Daniela tomavam café da manhã sozinhos. As crianças ainda dormiam e os
pais de Everton tinha ido à igreja. Naquele dia, o marido, que “nunca
levantou a mão” para ela, estava ainda mais carinhoso. “Parecia que ele
tava pressentindo”: _ Eu te amo, fia... Vamo trabalhar comigo hoje, vai? _ Eu não vou não, fio. Vou ficar em casa com meus filhos. O
rapaz ainda insistiu algumas vezes, mas percebendo que a moça não
mudaria de ideia, disse a ela que a esperaria depois das nove da noite.
Enquanto ele ia embora, Daniela reparou como ele estava bonito naquele
dia. Blusa de lã branca, com um casaco azul de capuz por cima,
combinando com a bermuda também azul com flores brancas e tênis nos
pés. O cabelo sempre bem curto e o rosto lisinho, do jeito que Daniela
sempre gostou. Em casa, cuidando dos filhos e
dos afazeres domésticos, o dia passou para Daniela sem novidades.
Quando anoiteceu, a jovem ficou aguardando o retorno da sogra para
poder se encontrar com o marido. Assim que Dona Jandira de Moraes
Pereira, mãe de Everton chegou, Daniela saiu. A
casa onde moram fica num pequeno cortiço. Destoando dos outros barracos
de madeira, o de sua família é de alvenaria. Mesmo sem acabamento e
apesar de muito pequeno, os brinquedos, o capricho e a limpeza, dão ao
lugar um ar acolhedor. Instalado no alto de um
morro na periferia próxima ao centro da cidade, o cortiço fica a pouco
menos de dois quilômetros do Bosque Maia, onde Daniela combinou de
encontrar o marido. No caminho, a jovem estranhou a quantidade de
viaturas e a movimentação incomum para uma noite de domingo. Quanto
mais se aproximava do lugar onde encontraria Everton, mais estranhava.
De longe, percebeu que não havia ninguém lá. Andou ainda mais um pouco
para tentar encontrar o marido que poderia ter se afastado da esquina,
mas as ruas estavam desertas. De repente, assustada, percebeu alguém
chegar correndo. Era um dos colegas do seu marido: _ Eu, o Everton e o Diego acabamo de ser enquadrado. O
rapaz, agitado e suado disse que conseguira fugir, mas os dois outros
garotos tinham sido pegos pela polícia que os tinha abordado há poucos
minutos. “Se você correr vai achar eles lá na rua da quadra
abandonada”. Sem se preocupar com o perigo que
poderia estar prestes a enfrentar, Daniela não pensou duas vezes e
correu muito. Chegando ao lugar indicado pelo amigo de seu marido, que
ficava a um quarteirão do Bosque, viu a quadra na penumbra e nenhum
sinal da viatura ou de qualquer movimentação. Entrou no espaço
abandonado imaginando que poderia encontrar Everton machucado e
sozinho, caído em algum canto, mas novamente viu tudo vazio. Sem
saber o que fazer, imaginou que se voltasse ao local combinado com o
marido e aguardasse, poderia, quem sabe, dar de cara com Everton. E,
novamente esperançosa, correu rezando para encontrar seu marido. O
tempo foi passando e, fora o barulho e movimento incomum de viaturas
pelas ruas, ninguém apareceu. Depois de quase duas horas de espera,
imaginou que sua sogra poderia estar preocupada e resolveu voltar para
casa. Quem sabe. Everton não teria telefonado? Ou, melhor ainda, ele
poderia até estar em casa com os filhos e aquilo tudo não teria passado
de um pesadelo. Enquanto subia para casa, rezou para que nada de mal
tivesse acontecido ao marido. Assim que abriu a porta de casa, agitada
perguntou à Dona Jandira: _ O Everton ligou? Ele já chegou? Assustada
com a história relatada pela nora, Dona Jandira, lamentou não poder
dizer a ela que o filho havia dado notícias. Sem ter o que fazer, ambas
foram se deitar, mas naquela noite, com exceção das crianças que nem
sequer poderiam desconfiar do que estava acontecendo, ninguém dormiu na
casa. Pela manhã, o marido de Dona Jandira, seu
João dos Santos Pereira de 54 anos, foi ao 1º DP da região. Naquele
dia, o entra e sai de gente na Delegacia era muito maior do que o
normal. Telejornais e programas de rádio, não paravam de noticiar o
caos que tinha tomado conta de São Paulo. Em diversos pontos da
capital, interior e, também em Guarulhos e outros municípios, tinham
sido registrados durante a madrugada diversos ataques a postos
policiais. O que se dizia em todos os lugares é que o terror tinha sido
instaurado por ordem de líderes do Primeiro Comando da Capital, o PCC,
em retaliação à transferência de membros do grupo a presídios do
interior. Quando seu João chegou ao DP, a
primeira coisa que o oficial perguntou foi se seu filho era do PCC.
Surpreso com a pergunta, seu João afirmou que seu filho já tinha
“errado na vida, mas que não era marginal”. Devido à insistência do
homem, o policial se encaminhou à área onde estavam os rapazes
capturados durante a noite. Sem conseguir ver onde o oficial tinha ido,
seu João aguardou, pedindo a Deus que seu filho estivesse “apenas”
preso. Ao retornar, o policial disse que ele poderia voltar tranqüilo
para casa porque, Everton estava detido na delegacia. Ao
dar a notícia à esposa e à nora, seu João, que chegou a temer pela vida
do filho ao ver na TV tudo o que tinha acontecido desde o final de
semana, sentiu-se aliviado. Entretanto, ao
retornar à delegacia dois dias depois, conforme fora orientado, ele não
encontrou seu filho. Passado algum tempo, seu João acredita que o que
lhe disseram naquela segunda-feira tinha só a finalidade de afastá-lo
dali. Ele acha que “os policiais não queriam ninguém atrapalhando”
naquele momento de tanta confusão e desconfiavam de qualquer pessoa. Numa
das vezes, quem foi em busca de notícias na Delegacia, foi a própria
Daniela. Tomada, como sempre, de muita coragem, a moça diz que se
tivesse dado de cara com o policial que maltratava seu marido, ela
“pulava no pescoço dele até ele dizer onde tava o Everton”. Como
já teve o filho detido no Centro de Detenção Provisória (CDP) por dois
meses após a tentativa de furtar objetos de bronze do Cemitério
Municipal de Guarulhos, para comprar maconha, seu João foi até lá na
tentativa de localizar Everton. Mais uma vez não teve sucesso e
retornou para casa sem o filho. Orientado pelos funcionários do CDP, a
família registrou um Boletim de Ocorrência de desaparecimento e começou
a busca em unidades do Instituto Médico Legal (IML) de Guarulhos e da
capital paulistana. Ora seu João, ora a própria
Daniela, enfrentam a rotina de tentar achar Everton entre as dezenas de
corpos de jovens mortos durante os dias de ataques do PCC e ainda não
identificados. Ao mesmo tempo em que desejam pôr fim às dúvidas quanto
ao destino do rapaz, eles rezam por não reconhecer o jovem entre os
mortos. A procura continua e só vai parar quando
Everton for encontrado e puder voltar pra casa. A cada nova informação,
seu João e a família recuperam a esperança e se agarram a ela:
_ Disseram que viram meu filho lá em Santos. Eu sei que é
ele, e eu vou pra lá e vou trazer ele de volta pra casa.
Daniela não pára de pensar no dia em que terá o marido de
volta. Desde que ele desapareceu, ela dorme ao lado do enorme urso
panda de pelúcia que ganhou do marido no dia dos namorados de 2005.
Ainda apaixonada e cheia de saudade, às vezes ela adormece chorando,
pensando em Everton e sonhando em reencontrá-lo. [voltar]
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